março 26, 2006

Passo a passo






"Declarar que a vida é absurda é o mesmo que negar que lhe possamos algum dia dar sentido; dizer que é ambígua é afirmar que o seu objectivo ainda está para ser atingido, que se trata de uma conquista permanente."
Simone de Beauvoir
(fotos Berenice)

março 24, 2006

Pensamento para o fim-de-semana

A célebre personagem de banda desenhada, Mafalda, da autoria de Quino, discursa perante Filipe:
- Já te ocorreu pensar na quantidade de minutos que esperam a sua vez para sair dos relógios??? Temos à nossa frente milhões de minutos ainda por usar! Minutos reluzentes e novinhos em folha! Minutos que, sobretudo, teremos de saber usar positivamente!
Derrotado, Filipe responde-lhe:
- Meu Deus! Que responsabilidade!
(autoria: Quino)

março 23, 2006

Paliativos


BD: Quino

...renascer, uma e outra vez...

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes

março 22, 2006

Música... para os meus ouvidos

Está aí o último dos Placebo, MEDS.
Simplesmente perfeito, do início ao fim.


(foto. capa álbum: www.placeboworld.co.uk)

Na palma das mãos

março 21, 2006

Touradas


Tentando perceber as “tradições”, colocando-me no lugar do “outro”, que às vezes está tão perto de nós que nos confunde ao limite da racionalidade, este excerto fez-me perceber melhor o fenómeno tauromáquico e o que ele tem de mais chocante para a maior parte das pessoas (nas quais me incluia):
«Alguns animais emblemáticos são, (...), investidos de uma particular carga simbólica. Tal é o caso do toiro de lide. Deus mediterrânico antigo, umas vezes feroz e destrutivo, outras fértil e generoso, ao mesmo tempo criminoso e maná do bodo aos pobres, o toiro bravo tem sido símbolo de força, de poder, de fertilidade. E de insubmissão, num duelo ancestral com o homem. Criação humana, permanece porém altivo na sua bravura e desafiante na sua natureza irredutível. Do toiro não se pode ter pena, que isso é sentimento para os fracos. Nas sociedades onde permanecem cultos taurinos, o toiro bravo sugere medo e paixão. Por isso, é ele, e não outro animal qualquer, o sacrificado. São as suas qualidades excepcionais que procuram os que o comem. // Essa carga simbólica está na origem de rituais que comportam, entre muitas outras coisas, a violência, é certo. Mas, desde logo, estão longe de deter dela o monopólio. A violência faz parte da vida e manifesta-se muitas vezes de forma desregulada e contra as pessoas. As touradas constituem, pelo contrário, instrumentos de controlo da tensão e da agressividade. Depois, se violência existe, ela é regulada e vai de par com a paixão que se sente pelo animal, incluindo o destino heróico para que foi criado. Um destino “natural”, do ponto de vista de quem os cria, os alimenta e com eles vive em equilíbrio. De resto, do ponto de vista da festa, a verdadeira natureza do toiro de lide realiza-se e exprime-se pelo acto de que morre: a bravura e a nobreza na luta (Wolf, 1999).»
Este excerto pertence a um artigo intitulado «Barrancos na Ribalta, ou a Metáfora de um País em Mudança», a autoria é de Luís Capucha, sociólogo. O texto completo encontra-se em:

(fotos Karura)

março 20, 2006

março 16, 2006

"ESTOU"



Estou tonto,
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E não sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantar dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.

Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada.
É por isso que estou tonto...

Agora
Todas as manhãs me levanto
Tonto...

Sim, verdadeiramente tonto...
Sem saber em mim e meu nome,
Sem saber onde estou,
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.

Mas se isto é assim, é assim.
Deixo-me estar na cadeira,
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto...
Tonto.

Álvaro Campos

março 10, 2006

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Fernando Pessoa

março 08, 2006

Eternidade

Tu tens um medo:
Acabar.



Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.


Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.

Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

(foto. Berenice)

março 05, 2006

"Já"

já não é hoje?
não é aquioje?

já foi ontem
será amanhã?


já quandonde foi?
quandonde será?

eu queria um jàzinho que fosse
aquijá
tuoje aquijá.

Alexandre O’Neill

(fotos Berenice)

março 04, 2006

"Cai Chuva do Céu Cinzento"


Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.

Fernando Pessoa

(Fotos Berenice)

março 03, 2006

"Agricultura da Memória"

Ali havia uma oliveira, naquele quintal
Em frente jogávamos à bola, lá ia ela de vez em quando
A bola perdida no quintal, o jogo parado.
Trepava a oliveira, tínhamos medo do velhote.
O velho do quintal, a bola, a oliveira.
Não, era uma figueira, dizes tu.
Era uma figueira? Era uma figueira.
A memória planta oliveiras onde havia figueiras.
Com que facilidade
A memória é uma grande empresa agrícola.
Luís Soares

(Fotos Berenice)

março 01, 2006

"Segue o Teu Destino"

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

(Fotos Berenice)

"Pelo Alto Alentejo"


Meto butes à inteira planura.
Esboroa-se a terra.
Lá para trás,
Sobraram o paleio e a literatura.
Aqui, na aparência, só a paz.
Mas que paz se desdobra a toda a anchura
Do horizonte a que o olhar se faz?
Esta página em branco (ou sem leitura)
Não terá uma chave por detrás?

Eu sei ler a cidade, mas, aqui,
Sou um dedo parado em letra morta.
Uma guerra haverá, com o álibi
Da paisagem que a outras me transporta.


Hei-de voltar pra ler e presumir,
Quando Alentejo se puser a rir…

Alexandre O'Neill
(Fotos A.I.M.; manip. B.)