abril 28, 2006

Aqui Jaz













...
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
...

Eugénio de Andrade
(fotos Berenice)

A Árvore dos Afectos

Assemelha-te de novo à árvore que amas, a árvore de grandes ramos:
silenciosa e atenta, ela deixa-se pender sobre o mar.
F. Nietzsche


O meu avô era alto e magro. Era uma pessoa carismática, talvez produto ou resultado da vida que decidiu levar. Ou talvez não... Há pessoas assim, parece que trazem carisma no ADN. Foi pastor a maior parte do seu tempo útil de vida, mas não creio que o isolamento que a profissão exigia – semanas, provavelmente meses, a fio sozinho por altas paragens da Estrela – fosse para ele uma inquietação. Antes pelo contrário. Ser pastor não era uma profissão. Era um prolongamento da expressão dele mesmo. Fumava tabaco de enrolar. Fumou até muito tarde. Foi, até morrer, uma pessoa do contra (abençoado) e, diria até, um pouco anti-social. Na verdade, era uma pessoa difícil. Mas nunca faltou nas atenções e afectos de avô e essa contradição deliciava-me. Sentia-me privilegiada e, por ser a neta mais nova, ele chamava-me «minha jóia». Contava sempre as mesmas lengalengas, daquelas que rimam e têm piada, das quais hoje só me lembro de frases soltas. Descreveu-me vezes sem conta, procurando nos meus olhos a partilha dessa memória, os passeios que deu a pé comigo quando foi operado e teve de ficar em Lisboa. Eu era muito pequena e por isso não me lembrava mas lembro-me de ter pena de não lhe poder dizer que sim. Uma vez tentou catequizar-me e ensinou-me o Sinal da Cruz, «Pelo sinal da Santa Cruz, livre-nos Deus Nosso Senhor dos nossos inimigos». Foi num final de um dia de verão, os dois sentados sobre uma manta velha, na tapada, debaixo de uma macieira de brado esmolfe. Catequese com cheiro adocicado. Nem ele nem eu demos sequência à coisa – no fundo partilhávamos ambos de algum desinteresse pela religião, mas nunca o assumimos explicitamente, ele provavelmente porque achou que era o seu papel ensinar-me essas coisas e eu porque não o queria desmentir na importância do Divino. Consumou-se simplesmente como se de um pacto silencioso se tratasse.
Nunca argumentou ou justificou-se no que quer que fosse. Era assim e pronto. Ninguém lhe mudava as ideias. Dizia, por exemplo, que nem eu nem a minha irmã éramos lisboetas porque, apesar de termos nascido na cidade, o que contava era a terra de baptismo e essa, ah essa sim, era a terra dele. Avaliava-nos, divertido, o grau de saúde pelos ossos das costas que, naturalmente, se sentem e por isso diagnosticava com alguma preocupação irónica que estávamos magras (quanto mais gordas, mais saudáveis...). No regresso ou na partida, lá estava ele sempre no mesmo sítio, sentado no miradouro em frente à sua casa. E do alto, acenava-nos. Morreu há sete anos já na casa dos noventa.

Eu cresci assim e percebi apenas recentemente que se há, na vida que vivemos, um tempo para tudo, na minha vida este foi o tempo das certezas. Afectos sólidos e inabaláveis. Mais que isso: afectos inquestionáveis. A macieira da tapada foi derrubada pelo vento e pelo tempo. Está hoje deitada no chão, a ele unida por uma ínfima parte da raiz e, espanto-me, assim prostrada, dá flores e dá frutos. Resiste ainda, metáfora deste tempo, metáfora destes afectos... e, no fundo, metáfora de mim. B.
(fotos Berenice)

abril 26, 2006

Patch Work*


«Às vezes sou vapor e às vezes, gelo.
E, em todas estas formas de ser, sou útil, sou inútil e às vezes até sou prejudicial.
...
Porque admito ser a parte e não o todo.
Porque sou muitas coisas e uma só.
Porque não sou mais do que aquilo que sou.
Mas tão-pouco sou menos.»

Jorge Bucay

(* ou o trabalho do remendo. auto-retratos. Berenice)

Elvas


25.04.2006

(fotos Berenice)

abril 23, 2006

Insónias

Aqui há pouco tempo veio parar-me às mãos (obrigada, mãe!) uma colcha que foi da minha avó. Muito simples, monocromática. Linda. Tem em cada fio da trama, em cada fio da urdidura e em cada nó da franja um charme que me prende e transporta ao início. Ao início do meu universo afectivo, portanto, ao meu início. A minha colcha é uma sobrevivente do tempo. Poderoso, esse apelo. E é esse poder que ela exerce sobre mim. Está agora disposta sobre a minha cama e, quando me deito, aquele horizonte cor de canário ganha as formas do meu corpo. É esta a última imagem que vejo antes de fechar os olhos e adormecer, e pelo tempo de uma noite eu também sou como ela: simples, monocromática, mas única em cada traço meu.
...Quanto dura uma noite? Depende, às vezes dura uma vida inteira.

Estremoz




12.04. 2006
(fotos Berenice)

abril 22, 2006

Acordar

Junto
às magoas
dorme
o sonho
Amanhã
pela manhã
virão
os olhos acordar-me
O resto
Invento

"Ser" - Domingos Galamba

(fotos / manip. Berenice)

abril 21, 2006

As noites, os meses e os segundos




E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes



encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos



E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.





David Mourão-Ferreira


(fotos Berenice)

abril 13, 2006

abril 12, 2006

Sabedoria à porta de casa

(foto Berenice)

Bons auspícios


(Fotos Berenice)

Flutuo

Flutuo.
Consigo deslindar o meu rosto, sem esforço,
Balanço é o que a maré me dá
E eu não contesto
O meu destino está fora de mim, eu aceito,
Sou eu despida de medos e culpas, confesso.
Hoje eu vou fingir
Que não vou voltar,
Despeço-me do que mais quero.
Só para não te ouvir dizer que as coisas vão mudar
Amanhã…

Flutuo.
Consigo deslindar o meu rosto, sem esforço,
Balanço é o que a maré me dá
E eu não contesto
Amanhã pensar nisso sempre me dá mais jeito,
Fazer de mim pretérito mais que perfeito.
Hoje eu vou fugir
Para não me dar
À vontade de ser tua
Só para não me ouvir dizer que as coisas vão mudar
Amanhã…
Amanhã…

…Flutuo.
("Flutuo" - Susana Félix)

abril 11, 2006

tic tac

Não é a decisão que me entorpece, é a certeza da falta de alternativas. O tempo passa demasiado lentamente para quem conta com ele. Quero acordar e sentir-me inteira. Anseio pelo dia em que a dispersão de mim mesma acabe. Onde andas tu agora? - pegunto-me - não estás aqui, não estás em ti... sim, não estou totalmente em mim... ainda.

abril 08, 2006

abril 02, 2006

Sinais de um tempo cíclico

(Foto: Berenice)

"ETAPAS"



Não te detenhas nos corredores sombrios,
são apenas etapas que importa ultrapassar.
De qualquer modo, não passam de episódios
e têm forçosamente um fim.
Os precipícios só existem
na cabeça de quem os inventa.
Nunca cedas ao medo das viagens longas,
de que a vida também se faz.
Na primeira carruagem dos comboios nocturnos
viaja sempre a madrugada.
Quando o sol te acordar, verás que o pesadelo
não passou disso mesmo, um pesadelo.

Torquato da Luz

(foto. Berenice)